Me observam na rua com seus olhos cegos pela injúria; suas pupilas pretas, pequenas, envoltas por íris brancas como o papel usado para anotar-me um recado que pisei pela manhã. A garçonete, loura dourado, vem até a mesa e me entrega a xícara de café forte. Me olha profundamente, sorrindo, me surpreendendo por ser a única com cor em seus olhos. Aceito o café, agradeço-lhe a gentileza e a vejo se afastar de volta para dentro do bar. Com meus pensamentos fixados nos olhos verdes-azulados daquela mulher, não deixo de sentir total desconforto em meu corpo por estar sendo fuzilado com olhares brancos, apagados de almas afogadas, ofegantes.
Me arrisquei vindo até aqui, pensei, não deveria ter saído de casa. Olha o caos desta cidade. É uma doença. Posso ser o próximo. Mas eu nada tinha a perder, que sugassem a mim, só como sou, não me importaria. Mas aquela moça…
Termino meu café, pego a carteira do bolso de minha calça, arranco de dentro dela dez reais e posto sobre a mesa, não me importando com o troco. Levanto-me, pego a mochila do chão e começo a caminhar. Todos os olhares me seguem, sem conseguir me ver, mas sendo os únicos seres a me enxergar durante toda minha vida. Todos os olhos refletem meu corpo cansado se afastando do bar, andando pela calçada, inclusive os da moça, verdes-azuis-como-o-céu. Ela me sorri. Eu jogo minha mochila nas costas e aperto o passo. Até amanhã, solitária.
Ele sentado na escadaria da igreja diz
que não tem capacidade de emoldurar-se
no sentimento que acaricia suas mãos
que repousam dentro dos bolsos de seu sobretudo.
Eu ainda sinto por ti o que disse antes,
mantenho minha sentença envolta em teu laço,
minha sina és tu, e assim será até minha falta de ar
embaixo da água da mais profunda banheira.
As senhoras ao teu lado, cada uma com uma rosa em mãos,
crucifixo a balançar no peito de somente uma, curvada para descer.
Por que não amas a mim como amas observar os que entram e saem
da casa daquele que tanto temos medo e queremos conhecer?
Sua fome me adocica o paladar, minha boca salivar,
mas agora que o vejo esvair, me revira o estômago.
Nossas conversas sumiram com o pipilar dos pássaros no pomar,
ficastes sozinho sentindo o vento do badalar dos sinos.
Sou silencioso em tua vida como furtivo ladrão
apesar dos tropeços na china a quebrar
e se espalhar pelo chão da casa de minha vizinha.
Ele me disse ao juntar-me ao teu lado no frio
que não sei tricotar blusas de lã para nós dois,
que deveria abrir a boca para o vento mudar de direção.
… E o beijei
Poesia eu tenho.
(Tenho?)
E a poesia me tem.
(Tem mesmo?)
Os versos também.
(Certeza?)
As estrofes vêm chegando.
(Mas elas sentam pr’um café?)
A musicalidade eu possuo.
(Possui de verdade?)
Os pontos finais sempre ficam.
(Eu ouvi eles darem adeus.)
O suspiro vem que é uma beleza.
(Se acalma senão morre!)
Tenho lápis e papel.
(Sem ponta e caiu água em cima.)
O que me falta?
(Tudo?)
Tudo.
Cada cantinho daquele beijinho que roubou a sombra dos meus olhos, Petit Prince, o brigadeirinho que trouxe à festa, o toque suave ao suspiro ofegante no meu cangote. Desejo-te o desejo de desejar o que quiseres de mim. Faça de nosso leito a nuvem fofa de algodão que vimos na quarta-feira passada enquanto passeávamos no denso Trianon. Cada passo teu, mais largo que o meu; tão alto você me faz olhar pra cima e ainda me sentir no céu. Da boca rosada que traz lembranças repentinas de um presente tão futuro ao tocar meus lábios que só sabem lhe dizer: “Petit, envolva-me”. Recolha as margaridas e ponha-as num vaso. Deixe os lírios, é para eles que quero olhar quando estiver na janela pensando em ti. Chocolate em teu, meu corpo, lamba-me e diga o quão doce sou quando estou contigo.
Dedilho meu sonho em tuas costas e beijo-te o ombro que me carrega para me deixar ver acima das cabeças cinzas sugadas pelo nada do mundo oco que caminham nas calçadas cheias em frente ao MASP. Peça-me pra ficar que tranco a porta e lhe entrego a chave. Minha casinha rústica, meu portãozinho de madeira, minha estante de livros, meu cantarolar em tarde primaveril, água que me toca a pele e me massageia a alma, não te esqueças de mim enquanto estivermos distantes, não te esqueças que a ti pertenço, que és minha poesia que toca notas nas estrofes do nosso, tão meu, tão seu beijinho molhado com gosto de canela na nuca.
O Céu está escuro, nuvens carregadas e eu trancado no quarto…