Fatídico I'm Vini, and this is just art.
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  • abstraire published a quote post 1 year ago

    Me observam na rua com seus olhos cegos pela injúria; suas pupilas pretas, pequenas, envoltas por íris brancas como o papel usado para anotar-me um recado que pisei pela manhã. A garçonete, loura dourado, vem até a mesa e me entrega a xícara de café forte. Me olha profundamente, sorrindo, me surpreendendo por ser a única com cor em seus olhos. Aceito o café, agradeço-lhe a gentileza e a vejo se afastar de volta para dentro do bar. Com meus pensamentos fixados nos olhos verdes-azulados daquela mulher, não deixo de sentir total desconforto em meu corpo por estar sendo fuzilado com olhares brancos, apagados de almas afogadas, ofegantes.

    Me arrisquei vindo até aqui, pensei, não deveria ter saído de casa. Olha o caos desta cidade. É uma doença. Posso ser o próximo. Mas eu nada tinha a perder, que sugassem a mim, só como sou, não me importaria. Mas aquela moça…

    Termino meu café, pego a carteira do bolso de minha calça, arranco de dentro dela dez reais e posto sobre a mesa, não me importando com o troco. Levanto-me, pego a mochila do chão e começo a caminhar. Todos os olhares me seguem, sem conseguir me ver, mas sendo os únicos seres a me enxergar durante toda minha vida. Todos os olhos refletem meu corpo cansado se afastando do bar, andando pela calçada, inclusive os da moça, verdes-azuis-como-o-céu. Ela me sorri. Eu jogo minha mochila nas costas e aperto o passo. Até amanhã, solitária.

    - Vinicius Nogueira, “Cegueira”.
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  • abstraire published a quote post 1 year ago

    Ele sentado na escadaria da igreja diz
    que não tem capacidade de emoldurar-se
    no sentimento que acaricia suas mãos
    que repousam dentro dos bolsos de seu sobretudo.

    Eu ainda sinto por ti o que disse antes,
    mantenho minha sentença envolta em teu laço,
    minha sina és tu, e assim será até minha falta de ar
    embaixo da água da mais profunda banheira.

    As senhoras ao teu lado, cada uma com uma rosa em mãos,
    crucifixo a balançar no peito de somente uma, curvada para descer.
    Por que não amas a mim como amas observar os que entram e saem
    da casa daquele que tanto temos medo e queremos conhecer?

    Sua fome me adocica o paladar, minha boca salivar,
    mas agora que o vejo esvair, me revira o estômago.
    Nossas conversas sumiram com o pipilar dos pássaros no pomar,
    ficastes sozinho sentindo o vento do badalar dos sinos.

    Sou silencioso em tua vida como furtivo ladrão
    apesar dos tropeços na china a quebrar
    e se espalhar pelo chão da casa de minha vizinha.

    Ele me disse ao juntar-me ao teu lado no frio
    que não sei tricotar blusas de lã para nós dois,
    que deveria abrir a boca para o vento mudar de direção.

    … E o beijei

    - Vinicius Nogueira, “Bolsos furados”.
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  • abstraire published a quote post 1 year ago
    Foi. Em passos sorrateiros molhando o assoalho de madeira do pequeno apartamento, deixando o manto escorregar… Foi. Não falta muito pra chegar, mas para no meio do corredor, esperando ser pega no colo daquele que deixou uma marca suave no tecido do colchão, o cheiro no travesseiro e o bilhete no vapor deixado pelo banho quente no espelho do banheiro; esperando, com frio e pingando, ser carregada até o quarto tão perto, tão longe. Toalha novamente envolta no corpo, se dirige à sala e senta no sofá. Na mesa de centro seu pensamento pesa: “Amanhã. É, amanhã eu durmo contigo novamente, meu bem. Ou compro um novo colchão, ou um novo apartamento…” Ou morro contigo.
    - Vinicius N., “Keep Warm”.
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  • abstraire published a quote post 1 year ago

    Poesia eu tenho.
    (Tenho?)

    E a poesia me tem.
    (Tem mesmo?)

    Os versos também.
    (Certeza?)

    As estrofes vêm chegando.
    (Mas elas sentam pr’um café?)

    A musicalidade eu possuo.
    (Possui de verdade?)

    Os pontos finais sempre ficam.
    (Eu ouvi eles darem adeus.)

    O suspiro vem que é uma beleza.
    (Se acalma senão morre!)

    Tenho lápis e papel.
    (Sem ponta e caiu água em cima.)

    O que me falta?
    (Tudo?)

    Tudo.

    - Vinicius Nogueira, “Pequena lista de (necessárias) certezas”.
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  • abstraire published a quote post 1 year ago

    Cada cantinho daquele beijinho que roubou a sombra dos meus olhos, Petit Prince, o brigadeirinho que trouxe à festa, o toque suave ao suspiro ofegante no meu cangote. Desejo-te o desejo de desejar o que quiseres de mim. Faça de nosso leito a nuvem fofa de algodão que vimos na quarta-feira passada enquanto passeávamos no denso Trianon. Cada passo teu, mais largo que o meu; tão alto você me faz olhar pra cima e ainda me sentir no céu. Da boca rosada que traz lembranças repentinas de um presente tão futuro ao tocar meus lábios que só sabem lhe dizer: “Petit, envolva-me”. Recolha as margaridas e ponha-as num vaso. Deixe os lírios, é para eles que quero olhar quando estiver na janela pensando em ti. Chocolate em teu, meu corpo, lamba-me e diga o quão doce sou quando estou contigo.

    Dedilho meu sonho em tuas costas e beijo-te o ombro que me carrega para me deixar ver acima das cabeças cinzas sugadas pelo nada do mundo oco que caminham nas calçadas cheias em frente ao MASP. Peça-me pra ficar que tranco a porta e lhe entrego a chave. Minha casinha rústica, meu portãozinho de madeira, minha estante de livros, meu cantarolar em tarde primaveril, água que me toca a pele e me massageia a alma, não te esqueças de mim enquanto estivermos distantes, não te esqueças que a ti pertenço, que és minha poesia que toca notas nas estrofes do nosso, tão meu, tão seu beijinho molhado com gosto de canela na nuca.

    - Vinicius Nogueira, “Beijinho”.
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  • abstraire published a quote post 1 year ago
    ‒ Querida, vou sair para comprar cigarros e de quebra compro-lhe um belo buquê de flores. ‒ Diz abrindo a porta da frente e pegando o casaco. Vira, olha para sua esposa vindo em direção a ele, pega-a de leve pelos ombros, escorrega as mãos até suas bochechas e beija-lhe a testa, e depois os lábios como quem diz: até daqui a pouco.
    - Vinicius Nogueira, trecho de “Querida, vou comprar cigarros”.
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  • abstraire published a quote post 1 year ago
    Aquela flor inexistente que cai
    n’água do alto do vento, negra,
    escura, espalhando ondas,
    assustando peixes, distorcendo
    a luz clara e cegante do céu.
    Sozinha, comigo, sorrindo, sendo
    apenas flor, rosa que
    afunda no lago de águas límpidas.
    Você
    - Vinicius Nogueira, “Mon Rose”.
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  • abstraire reblogged a text post 1 year ago
    A promessa que fiz.

    O Céu está escuro, nuvens carregadas e eu trancado no quarto…

    Está ameaçando chover forte por cá, na minha ruazinha que outrora me trazia paz. Não obtive um “bom dia” vindo das bocas dos meus familiares, hoje, logo depois que acordei; nem sequer um rápido aceno de mão ou um mero e singelo levantar do dedo indicador. Bom! pouco me importa isso. Está para chover, e prometi a mim mesmo que, a única coisa que quero fazer, agora, é terminar de escrever-lhe esta carta, antes que as águas do céu me distraiam e levem minhas palavras.

    Batalho há tempos contra mim mesmo, tentando manter-me observador das cores que existem além do cinza, procurando sorrir do pouco que a vida me dá de bom… Digo-lhe isso porque gozo que encontrei em ti nunca encontrei ou existiu em outro ser, tampouco felicidade, dengosinha. Sorrisos que conseguistes arrancar de mim duram até hoje e muito além de minha idade, palpitações que fizestes meu peito dar e gritar se multiplicam a cada dia, olhar que brilho torna minhas manhãs, que suspiros me faz dar… Promessa que fiz a ti de, com meu primeiro tostão, pegar um avião e ir visitar-te com o coração na boca e os pulmões arfantes, nervosos, loucos para tocar tua pele e sentir que é real.

    Começaram a cair os primeiros pingos, preciso me apressar.

    Há em ti, minha flor, melodia que nunca ouvi, muito menos senti durante toda minha vida até o momento que pus meus olhinhos em tua face, quando vi teus olhos e sentia tua alma invadir-me a consciência e embaralhar meus pensamentos. Nada temos em comum… Não, não, errei. Quase nada temos em comum. E isto não me importa, pois não me apaixonei por seus gostos e desgostos. Tu, amante e ouvinte ávida de David Bowie e rock – na verdade vários estilos – dos anos oitenta e tantos outros tipos de música; e eu, apaixonado por blues e MPB, louco por sentar n’um café enquanto leio Drummond. Quiçá eu não te conheça nos detalhes, nas entrelinhas, afinal, nunca olhei fundo em teus olhos para lê-la e depois beijá-la os lábios que tanto m e chamam para perto.

    Está chovendo forte, anjo meu, prevejo uma tempestade, vindo. E como eu disse e prometi a mim mesmo, terminaria esta carta na primeira camisa encharcada pendurada no varal que me recusei a recolher. Mas antes, quero dizer que não medi esforços para dizer que a amava, amo e sempre amarei, e o quanto desejo ter-te comigo. Até hoje apalpo tristemente meus lençóis à procura do teu corpo quente para me esquentar. Contento-me com meu travesseiro velho e frouxo e sonho contigo. Deixo aqui, nesse fim, minhas reticências e as flores que tanto quero encontrar em teu abraço. Hoje sou o menino que te ama, apaixonado. Sou aquilo que sempre quis ser e mais um pouco.

    Lembre-se de minha promessa, espero que nesse dia vá me buscar no aeroporto.

    Do para sempre teu,
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